O cabelo caindo no ralo do chuveiro, nos travesseiros, preso na escova. Para muitas pessoas, a queda capilar é uma fonte constante de angústia. A primeira reação costuma ser comprar um shampoo anticaída ou um suplemento vitamínico prometendo cabelos fortes. Mas a verdade é que, na maioria dos casos, esses produtos não resolvem -- porque não tratam a causa. E é justamente aí que o dermatologista entra.
Queda de cabelo: o que é normal e o que não é
Para começar, é preciso desmistificar algo: perder cabelo faz parte do ciclo natural do fio. Os cabelos passam por três fases -- crescimento (anágena), regressão (catágena) e queda (telógena). Em condições normais, perdemos entre 50 e 100 fios por dia. Isso significa que encontrar cabelos soltos na escova ou no chuveiro não é, por si só, motivo de alarme.
O problema começa quando essa queda ultrapassa o normal: quando o volume do cabelo diminui visivelmente, quando a linha de implantação recua, quando o couro cabeludo fica mais exposto ou quando os fios ficam cada vez mais finos. Esses sinais indicam que algo está desregulando o ciclo capilar, e a causa precisa ser investigada.
As principais causas da queda capilar
A queda de cabelo não é uma doença em si, mas um sintoma. E como todo sintoma, ela pode ter diversas origens. As mais comuns incluem:
Eflúvio telógeno
É a causa mais frequente de queda capilar aguda. Acontece quando um grande número de fios entra simultaneamente na fase de queda, geralmente dois a quatro meses após um evento estressor. Pode ser desencadeado por estresse emocional intenso, cirurgias, infecções (como a COVID-19), dietas restritivas, pós-parto ou mudanças hormonais. A boa notícia é que o eflúvio telógeno costuma ser reversível -- desde que a causa seja identificada e tratada.
Alopecia androgenética
Conhecida como calvície hereditária, é a forma mais comum de perda capilar progressiva, tanto em homens quanto em mulheres. Nos homens, manifesta-se com recuo das entradas e afinamento no topo da cabeça. Nas mulheres, a rarefação costuma ser difusa, com alargamento da risca central. A alopecia androgenética tem forte componente genético e hormonal, com participação da di-hidrotestosterona (DHT), que miniaturiza os folículos pilosos ao longo do tempo.
Deficiências nutricionais
Ferro, zinco, vitamina D, vitamina B12 e proteínas são nutrientes essenciais para a saúde capilar. Quando há deficiência -- seja por dieta inadequada, má absorção ou condições como anemia ferropriva --, o cabelo sofre. A queda pode ser difusa e os fios ficam opacos e quebradiços. É fundamental investigar essas deficiências através de exames laboratoriais antes de sair suplementando por conta própria.
Disfunções tireoidianas
Tanto o hipotireoidismo quanto o hipertireoidismo podem causar queda capilar significativa. A tireoide regula o metabolismo celular, incluindo o ciclo de crescimento dos cabelos. Quando está desregulada, os fios podem cair de forma difusa, ficarem ressecados e quebradiços. O diagnóstico é feito por exames de sangue simples e o tratamento da disfunção tireoidiana geralmente resolve a queda.
Estresse crônico
O estresse não causa apenas o eflúvio telógeno agudo. Quando se torna crônico, pode perpetuar a queda capilar e até agravar a alopecia androgenética. O cortisol em excesso afeta o ciclo capilar, encurtando a fase de crescimento e prolongando a fase de queda. Além disso, o estresse pode levar a hábitos que prejudicam os cabelos, como dietas restritivas e alterações do sono.
Outras causas
Alopecias autoimunes (como a alopecia areata), infecções fúngicas do couro cabeludo, uso de medicamentos (como quimioterápicos, anticoagulantes e alguns antidepressivos), doenças inflamatórias do couro cabeludo e até tração excessiva por penteados apertados podem provocar queda capilar. Cada causa exige uma abordagem completamente diferente.
Por que shampoos anticaída não resolvem o problema
A indústria de cuidados capilares movimenta bilhões com a promessa de cabelos mais fortes e volumosos. Shampoos anticaída, tônicos capilares, ampolas de vitaminas -- são inúmeros os produtos que prometem deter a queda. Mas é preciso ser honesto: shampoo não trata a causa da queda capilar.
O shampoo permanece em contato com o couro cabeludo por segundos durante a lavagem. Nesse tempo, não há penetração significativa de ativos que possam agir nos folículos pilosos. Além disso, se a causa da queda é hormonal, nutricional ou autoimune, nenhum produto tópico de uso cosmético será capaz de resolver.
Isso não significa que cuidar do couro cabeludo não seja importante. Um couro cabeludo saudável é a base para cabelos saudáveis. Mas a escolha do shampoo e dos produtos capilares deve ser orientada por um dermatologista, não pelo marketing.
Como o dermatologista investiga a queda capilar
A avaliação dermatológica da queda capilar é um processo sistemático que vai muito além de olhar o cabelo. Inclui:
- Anamnese detalhada: histórico de saúde, uso de medicamentos, hábitos alimentares, nível de estresse, histórico familiar de calvície, ciclo menstrual (em mulheres) e cronologia da queda;
- Teste de tração (pull test): o dermatologista traciona delicadamente um grupo de fios para avaliar se a queda é ativa e em que proporção;
- Tricoscopia: exame do couro cabeludo com dermatoscópio, que permite visualizar o calibre dos fios, a densidade capilar, sinais de miniaturização e alterações inflamatórias;
- Exames laboratoriais: hemograma, ferritina, vitamina D, vitamina B12, hormônios tireoidianos, testosterona e outros marcadores que ajudam a identificar causas sistêmicas;
- Biópsia do couro cabeludo: em casos selecionados, pode ser necessária para confirmar o diagnóstico, especialmente em alopecias cicatriciais ou de difícil classificação.
Tratamentos que realmente funcionam
O tratamento da queda capilar depende inteiramente do diagnóstico. Não existe uma solução universal. As opções incluem:
- Minoxidil: medicamento tópico (ou oral, em casos selecionados) que estimula o crescimento capilar e prolonga a fase anágena. É um dos tratamentos mais estudados e eficazes para a alopecia androgenética;
- Finasterida e dutasterida: medicamentos orais que inibem a ação da DHT nos folículos. Usados principalmente em homens com alopecia androgenética, com indicação criteriosa em mulheres;
- Reposição nutricional: quando há deficiências confirmadas, a suplementação dirigida de ferro, vitamina D, zinco ou biotina pode ajudar significativamente;
- Tratamento de doenças de base: correção de disfunções tireoidianas, controle de doenças autoimunes, ajuste de medicamentos que causam queda;
- Microagulhamento capilar: procedimento que cria microlesões no couro cabeludo para estimular fatores de crescimento e melhorar a absorção de medicamentos tópicos;
- Terapia com LED de baixa intensidade: recurso complementar que estimula a atividade celular no folículo piloso.
Quando se preocupar e procurar ajuda
Nem toda queda capilar exige pânico, mas alguns sinais merecem atenção imediata:
- Queda intensa e súbita, com perda visível de volume em poucas semanas;
- Falhas ou placas sem cabelo no couro cabeludo;
- Afinamento progressivo dos fios, especialmente na região central;
- Couro cabeludo com descamação, vermelhidão, coceira ou dor;
- Queda que não melhora após três meses, mesmo com cuidados gerais;
- Queda associada a outros sintomas, como fadiga, perda de peso ou alterações menstruais.
A queda capilar é um sintoma, não um diagnóstico. E tratar um sintoma sem entender sua causa é desperdiçar tempo, dinheiro e, muitas vezes, a janela de oportunidade para um tratamento eficaz.
Cuide do seu cabelo com quem entende da raiz do problema
Se a queda capilar está tirando sua tranquilidade, o primeiro passo não é ir à farmácia -- é ir ao dermatologista. Com uma investigação adequada, é possível identificar a causa real e traçar um plano de tratamento que funcione de verdade. No meu consultório, no Setor Bueno, em Goiânia, cada caso de queda capilar é avaliado de forma individualizada, com tricoscopia, exames complementares e uma abordagem baseada em evidências.